2 de nov. de 2007

Acordem

Olavo de Carvalho, filósofo
"Aquilo que disserdes no escuro será ouvido em plena luz; e o que sussurrardes dentro de casa será proclamado do alto dos telhados". A profecia (Lc., 12:3) não se refere aos miúdos segredinhos da nossa vida diária, mas, literalmente, ao "fermento dos fariseus" (id., versículo 1), a ação oculta dos grandes manipuladores e farsantes.
Essa ação tornou-se ainda mais eficaz e peçonhenta após o advento da mídia moderna, que, iluminando de maneira uniforme frações seletas da realidade, torna automaticamente invisível ou inacreditável o que quer que não esteja ali. O crescimento dos meios de divulgação resulta assim num progresso ainda mais inexorável dos meios de ocultação. Essa perversão congênita da indústria das comunicações exige correções periódicas, das quais a mais admirável, nos últimos tempos, foi a invenção do protocolo "html", que possibilitou a criação da rede mundial de computadores e furou espetacularmente o véu do segredo midiático.
Graças ao gênio de Tim Berners-Lee, um irlandês católico que entendia muito bem o apelo bíblico à luta contra os principados e as potestades das trevas, podemos saber, por exemplo, que a matança de cristãos no mundo já se tornou rotina, e que, em contrapartida, o cristianismo se expande mais rapidamente do que o islã ou o ateísmo. Essas duas informações, básicas para a compreensão da presente fase da história humana, estão ausentes da grande mídia porque esta não reflete os fatos e sim as idéias dos intelectuais tagarelas que a orientam, os quais, intoxicados de seu próprio falatório, preferem imaginar que perseguidos são os gays e que o mundo já entrou de mala e cuia em plena era "pós-cristã".
Graças ao html, temos acesso às estatísticas do SUS, jamais divulgadas em jornais ou noticiários de TV, segundo as quais o ministro da Saúde mente ao alardear uma epidemia de mortes devidas a abortos ilegais. Pela mesma via, descobrimos até - pasmem - que entre as grandes incentivadoras de abortos ilegais estão aquelas mesmas entidades que, alegando querer extirpar essa praga, fazem campanha pela liberalização do aborto. Se essas notícias saíssem nos jornais e na TV, muita gente ilustre iria para a cadeia, acontecimento lamentável que a solicitude dos jornalistas busca evitar. Iria para a cadeia também - ou ao menos perderia o cargo - o senhor presidente da República, que, no seu discurso de 2 de julho de 2005, feito na intimidade para seus companheiros de ideologia (http://www.olavodecarvalho. org/semana/050926dc.htm), confessou o mais escandaloso crime de responsabilidade já visto neste país, ao admitir que mentiu para o Congresso e para o povo brasileiro, tomando decisões secretas junto com ditadores e com os narcotraficantes das Farc, "sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse" (sic). Como esse discurso, embora reproduzido discretamente no site do próprio governo, jamais saiu na grande mídia, o senhor Luiz Inácio continua a salvo do impeachment e o grosso da população a salvo de qualquer contato com a realidade, abrigado num mundo paralelo feito de papel e imagens de TV.
Mas se vocês querem os três exemplos mais eloqüentes da diferença entre o mundo da mídia e o mundo como tal, cliquem os seguintes endereços na internet: http://video.google.com/videoplay?docid=-3378761249364089 950, http://www.youtube.com/ user/barox3 e http://www. youtube.com/watch?v=aZ1yoKcaAT0.
Não vou nem lhes dizer do que se trata. Façam a experiência e acordem.
[ 01/11/2007 ] 02:01

31 de out. de 2007

No creo en brujas, pero que las hay, las hay...


Feiticeiras e bruxas misturam neste mês alegria e temor, agitam monstros oriundos do universo da ficção e surgem em brincadeiras na festa da grande abóbora, cada vez mais popular, o esqueleto fazendo sombra à fadinha das estrelas. Em 31 de outubro, ocorre o Halloween, ritual anual remanescente do All Hallows Even, "véspera de todos os santos", festa noturna conforme o calendário lunar, que precede a versão diurna cristianizada denominada "Dia de Todos os Santos". Nesta data, "a fenda entre os dois mundos" abre-se e deixa passar os espíritos dos ancestrais que vêm revisitar a terra e reunir seus descendentes em sessões necromânticas. Celebra-se então o Halloween, com filmes, livros, performances sanguinolentas, concedendo terreno às trevas, que ganham e batem a luz, fazem emergir feiticeiras e demônios para reclamar seu lugar sob a lua. Animais sinistros e de mau agouro, gatos pretos, corujas, morcegos, além de vassouras e espíritos familiares comumente associados às bruxas detêm posição dominante nessa festa.Muitas crenças sobre o Halloween surgiram há mais de 2 mil anos e se desenvolveram entre os celtas. Para esse povo, 31 de outubro era considerado um dia sagrado, mágico, além do tempo e do espaço, marcando a chegada de um novo ano. As luzes das casas eram apagadas, tochas acendidas em honra dos ancestrais, iluminando o caminho daqueles que tinham partido. Muitos, na volta temporária à terra, vagavam livremente em busca de alimentos; daí seus familiares deixarem pratos com refeições do lado de fora da casa para agradar a seus espíritos e evitar aborrecimentos; foi dessa tradição que surgiu a expressão "gostosuras ou travessuras", que a criançada profere ao bater nas portas das casas no Halloween. Para Mário Corso, em Monstruário (2002), a bruxa - sempre velha, feia, malvestida, magra e com obscuras maneiras de fazer o mal - não falta em nenhum folclore - "é preciso ter cuidado, pois ela possui poderes de metamorfose e pode se apresentar como bela, rica e oferecendo presentes". Em "Convivendo com as bruxas" (Zero Hora, 4 novembro de 2003), Moacyr Scliar lembra que na América o Halloween foi incorporado pelos canadenses, oriundo dos Estados Unidos, e hoje está se abrasileirando... De fato, nos últimos 30 anos, muito se tem dito sobre bruxas e feiticeiras, um capítulo essencial da história cultural e sexual do Ocidente. Tanto nas pesquisas da História quanto nas histórias infantis - A Volta da Bruxa Boa (Lya Luft, 2007) - , a bruxa e a feiticeira voltam sempre, ilustrando a necessidade de se ultrapassarem interditos e barreiras. Apesar dos protestos e dos argumentos quanto à importação do Halloween, eles pouco adiantam. Conforme lembra Scliar, o Brasil importa muita coisa: importou o Carnaval, uma festa sobretudo italiana, o futebol, um esporte inglês; e continua importando filmes, músicas, palavras, o que é inevitável em tempos de mundialização. Ser das fronteiras, a bruxa ou feiticeira surge em nosso universo para abolir os limites espaciais e temporais, exercendo a capacidade diabólica de saltar intervalos entre os obstáculos do proibido e o escândalo do desejo liberado.
NUBIA JACQUES HANCIAU Doutora em Literatura Comparada (UFRGS), professora do PPG-Letras da Furg

30 de out. de 2007

agora é a copa.

o blatter anunciou e o mundo agora ja sabe o destino da copa de 2014. vai ser uma loucura. voces ja viveram copa em outros lugares e viveram o que acontecia aqui. agora imaginem o que vai acontecer aqui com a copa aqui. não teremos mais outros assuntos. até lá é copa e copo.

29 de out. de 2007

A copa e a cozinha

E a copa parece que vem mesmo. Nesta 3a.feira dia 30, a fifa deve confirmar a Teixeira, Lula, Coelho, Dunga e Romério que o Brasil vai sediar a copa de 2014. E ponto final.
Ponto final???!
Já ouvi que o Brasil pode ser a Índia terceiro mundista com previsão de crescimento, desenvolvimento chegando, pobreza acabando, indicadores assim e assado. Mas é a primeira vez que ouço que o Brasil é a Venezuela. Sim porque parece que depois do anuncio. a decisão é definitiva e ninguém pode discordar. O R.Teixeira, o genro, rei da CBF, já avisou que não vai permitir CPI sobre o caos do futebol. sobre a lavanderia que a MSI instalou no país. Já iniciou reuniões em Brasília ( "com a base de apoio...") e parece que esfriou por enquanto o assunto. Na área governamental o tema, embora seja privado, parecve que também virou dogma. O negócio trazer a copa e depois ver como fica. como vamos instrumentalizar a sua realização.
Temos recursos? Temos infra-estrutura? Quanto vai custar aos poderes públicos? e por ai vai.
Assim como em 70 os militares apoderaram-se do futebol, desta vez foras as redes que tomaram conta e levaram junto os governos. É muito dinheiro. É um vbom negócio. É um espetáculo que ninguém quer ficar fora do palco.
Por isso acho que a copa vem mesmo. Na platéia vamos ter os mesmos que estarão agora em 2010 na Africa do Sul. Nada de africanos do sul ( apenas aqueles eleitos) lá, assim como nada de brasileiros aqui.
"Eles" ficam com a copa, e nós com a cozinha mesmo.

28 de out. de 2007

E-Mail: o nome da traição

comentário de Moacir Sclyar, sobre essas coisas do mundo (ZH,28 de outubro,2007)

Casal se divorcia após descobrir que flertava pela internet. Um casal residente na cidade de Zenica, na Bósnia-Herzegovina, estava com problemas no casamento. Por causa disso, os dois iniciaram contatos pela internet e, sem saber de suas identidades, trocaram e-mails e acabaram se apaixonando. Quando a relação se tornou séria, resolveram se encontrar, e então descobriram quem eram. O casal decidiu se separar.Leram? Agora respondam que tipo de texto é este:a) Um miniconto escrito por um autor da nova geração;b) Resumo de um filme que vai estrear em breve;c) Uma autêntica notícia de jornal.Quem apostou na última resposta acertou. O fato aconteceu mesmo, comprovando o que muitas vezes já se disse, que a realidade não raro é mais estranha que a ficção.Em segundo lugar, a história demonstra a crescente importância que os e-mails têm em nossas vidas. Fala-se já de uma dependência do computador: há pessoas que não podem passar um dia, uma hora, sem checar suas mensagens. Não por outra razão corporações americanas (e a Intel é um exemplo recente) estão lançando o Dia sem E-mail, que em geral é a sexta-feira (os adictos ao correio eletrônico lembrarão que este é o dia das bruxas). Qual a razão da campanha? Seria o fato de que, nas empresas, as pessoas já não falam com as outras, mesmo que estejam sentadas lado a lado: preferem se comunicar pelos e-mails. O número de mensagens cresce assim exponencialmente, ao ritmo de quase 30% ao ano, o que não deixa de ser estressante: um estudo feito pela Universidade de Glasgow mostrou que pessoas checam seus e-mails até 40 vezes por dia, o que, convenhamos, é um exagero. Isto não significa que as pessoas estejam dispostas a aderir ao Dia sem E-mail. Ao contrário, acham que isto é uma arbitrariedade, e não foram poucos os protestos que se registraram nas empresas.
***
Agora: não deixa de ser irônico que o pessoal resista a trocar a comunicação escrita pela oral. Durante muito tempo, teóricos da comunicação sustentaram que o texto escrito estava morto, que o negócio agora era a imagem ou a fala. Não é verdade. As pessoas preferem escrever, ainda que escrevendo à maneira da internet, com aqueles peculiares códigos. Mais que isto, escrever significa penetrar em um novo território, viver uma nova vida. E aqui retornamos àquela história do início. É possível, vocês perguntarão, um casal se odiar na rotina do cotidiano e se apaixonar através de e-mails? É possível, sim. Porque não estamos falando das mesmas pessoas. O homem que escreve os e-mails não é o mesmo que arrota na mesa do jantar ou urina no tampo do vaso. A mulher que escreve os e-mails não é a mesma que anda pela casa de roupão rasgado ou que reclama do marido. Eles passaram por uma metamorfose, através da palavra escrita. Que, no caso, equivale quase a uma palavra mágica. A pergunta que se pode fazer é: não será isto que faz a mágica da literatura? Não será isto que nos transforma em admiradores incondicionais dos grandes escritores? Uma resposta que vocês podem dar na Feira do Livro deste ano.