28 de out de 2007

E-Mail: o nome da traição

comentário de Moacir Sclyar, sobre essas coisas do mundo (ZH,28 de outubro,2007)

Casal se divorcia após descobrir que flertava pela internet. Um casal residente na cidade de Zenica, na Bósnia-Herzegovina, estava com problemas no casamento. Por causa disso, os dois iniciaram contatos pela internet e, sem saber de suas identidades, trocaram e-mails e acabaram se apaixonando. Quando a relação se tornou séria, resolveram se encontrar, e então descobriram quem eram. O casal decidiu se separar.Leram? Agora respondam que tipo de texto é este:a) Um miniconto escrito por um autor da nova geração;b) Resumo de um filme que vai estrear em breve;c) Uma autêntica notícia de jornal.Quem apostou na última resposta acertou. O fato aconteceu mesmo, comprovando o que muitas vezes já se disse, que a realidade não raro é mais estranha que a ficção.Em segundo lugar, a história demonstra a crescente importância que os e-mails têm em nossas vidas. Fala-se já de uma dependência do computador: há pessoas que não podem passar um dia, uma hora, sem checar suas mensagens. Não por outra razão corporações americanas (e a Intel é um exemplo recente) estão lançando o Dia sem E-mail, que em geral é a sexta-feira (os adictos ao correio eletrônico lembrarão que este é o dia das bruxas). Qual a razão da campanha? Seria o fato de que, nas empresas, as pessoas já não falam com as outras, mesmo que estejam sentadas lado a lado: preferem se comunicar pelos e-mails. O número de mensagens cresce assim exponencialmente, ao ritmo de quase 30% ao ano, o que não deixa de ser estressante: um estudo feito pela Universidade de Glasgow mostrou que pessoas checam seus e-mails até 40 vezes por dia, o que, convenhamos, é um exagero. Isto não significa que as pessoas estejam dispostas a aderir ao Dia sem E-mail. Ao contrário, acham que isto é uma arbitrariedade, e não foram poucos os protestos que se registraram nas empresas.
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Agora: não deixa de ser irônico que o pessoal resista a trocar a comunicação escrita pela oral. Durante muito tempo, teóricos da comunicação sustentaram que o texto escrito estava morto, que o negócio agora era a imagem ou a fala. Não é verdade. As pessoas preferem escrever, ainda que escrevendo à maneira da internet, com aqueles peculiares códigos. Mais que isto, escrever significa penetrar em um novo território, viver uma nova vida. E aqui retornamos àquela história do início. É possível, vocês perguntarão, um casal se odiar na rotina do cotidiano e se apaixonar através de e-mails? É possível, sim. Porque não estamos falando das mesmas pessoas. O homem que escreve os e-mails não é o mesmo que arrota na mesa do jantar ou urina no tampo do vaso. A mulher que escreve os e-mails não é a mesma que anda pela casa de roupão rasgado ou que reclama do marido. Eles passaram por uma metamorfose, através da palavra escrita. Que, no caso, equivale quase a uma palavra mágica. A pergunta que se pode fazer é: não será isto que faz a mágica da literatura? Não será isto que nos transforma em admiradores incondicionais dos grandes escritores? Uma resposta que vocês podem dar na Feira do Livro deste ano.